Nos artigos anteriores podemos perceber existe uma diferença
essencial na concepção grega e cristã de piedade. Obviamente que a influência
grega pode ser claramente percebida no cristianismo, o qual se utiliza de seus
fundamentos para resinificar o termo a partir de seus fundamentos, sem
abandonar a perspectiva da cultura judaica.
Em ambos os casos a piedade é uma atitude
que busca corresponder ao divino. Ela torna-se inútil se buscada com a
motivação de medo ou pelo desejo de encontrar a graça divina. Além disso, ao
mesmo tempo em que a graça não é a obediência das leis naturais ou das ordens
de um deus, ela abrange submissão.
Uma relação que não pode passar despercebida,
tanto nos discursos de Pedro e Paulo em Atos, quanto no diálogo de Sócrates com
Êutifron, é que a piedade é intimamente ligada à justiça que conduzia o homem à
salvação de suas imperfeições e falhas. Salvação que retrata uma vida melhor
após a morte, de acordo com o comportamento adequado e dentro de preceitos
religiosos: “Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a
vida. Quem segue melhor rumo, se eu, se vós, é segredo para todos, menos para a
divindade.” (PLATÃO, 1972, p.33).
A diferença fundamental está de onde parte
o esforço da piedade. No pensamento socrático a piedade é claramente uma
atividade humana que não busca o favor divino, mas que o reconhece. Na
perspectiva cristã o homem é incapaz de alcançar o padrão da piedade, mesmo que
o reconheça através da lei. A piedade, portanto, para o cristianismo é não é um
movimento humano em direção aos deuses, mas um movimento do próprio deus em
direção ao homem.
Neste movimento Iahweh torna-se homem, para em sua humanidade colocar-se e apresentar-se
tanto como sacerdote, quanto como sacrifício. Sendo Iahweh, perfeito em sua humanidade (Jesus, o Cristo), ele é o maior
de todos os sacerdotes e o sacrifício definitivo pelos pecados, falhas, incapacidade
humana de viver em harmonia com o divino. Iahweh
sustenta-se em sua justiça, as falhas humanas exigem punição, e uma punição
adequada.
O cristianismo se apresenta como uma
religião diferenciada das demais nesse aspecto. A figura dos sacrifícios para
apaziguar a divindade é algo comum em toda cultura religiosa antiga, mas no
Cristianismo o próprio deus se entrega como sacrifício para reafirmar a ordem e
sua autoridade sobre o cosmos, e assim reestabelecer o seu relacionamento
harmônico com a humanidade. A morte e ressurreição de Jesus, na perspectiva
Cristã, é uma declaração do próprio Iahweh
de que ele permanece soberano.
O cristianismo também traz a noção de vida
após a morte, mas, diferente da cultura grega, não só admite, como também prevê
que aqueles que são feitos piedosos pela divindade, serão ressuscitados em
corpo material, da mesma maneira que Jesus o foi, segundo a tradição.
Dessa
feita, no cristianismo, piedade/ religiosidade:
[...]
descreve aquilo que está em harmonia com a constituição divina do universo
moral. Daí, é aquilo que está de acordo com a ideia geral e instintiva de
“direito”, “o que é consagrado e sancionado pela lei universal e consentimento”
(Passow), antes do que algo que está de acordo com algum sistema de verdade
revelada. (THAYER
e TMV)”
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRAFICAS
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BURNET, John (ed.)
Πλάτωνος Εὐθύφρων. 1903 Disponível em:< http://platoniki.ru/sites/default/files/library/euthypron10u.pdf >. Acesso em: 16 de dez. 2016.
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Lothar; BROWN, Colin. Dicionário
internacional de teologia. São Paulo: Vida Nova, 2000
Dicionário BDB, Thayer e TMV com números Strongs
ELLIS, E. E. The Gospel of Luke,
NBC
JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego.
Tradução de A. M. Parreira São Paulo: Martins Fontes, 1995.
MONDOLFO, Rodolfo.
Sócrates. Tradução de Lycurgo Gomes
da Motta. São Paulo: Mestre Jou, 1999
PLATÃO, Êutifron, p.38, 43 Todas as citações da
obra Êutifron foram retiradas da tradução de SANTOS (1993).
RAHLFS, Alfred (Ed.). Greek Old Testament, the Septuagint (LXX)
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SHAPIRO, Rabi Ken. Alexandre e os Judeus Disponível em:< http://www.chabad.org.br/biblioteca/historias/hist232.html>. Acesso
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VERNAT,
Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia
Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2009.


