A decisão que consumou o
processo de impeachment da então ex-presidente
Dilma suscitou acalorados debates e comentários a respeito da juridicidade e
justeza da referida decisão. De um lado gritam “Fora Temer” do outro publicam “Tchau Querida”.
Nesse cenário alguns têm
recorrido a figura histórica e humana de Cristo com o intuito de defender os
próprios posicionamentos políticos. Certamente nosso Mestre é referência para
os mais variados aspectos de uma vida justa. E, com toda a certeza, devemos
recorrer às Escrituras e a Cristo para tomarmos posicionamentos sábios num
cenário de crise política e institucional.
A intenção, no entanto,
que nos leva a recorrer à Palavra pode estar maculada pelo nosso egoísmo, que
se reflete no modo pelo qual (re)agimos e falamos diante desses últimos
acontecimentos.
Infelizmente, a utilização
atual de “Cristo” como fundamento político para o “pró” ou “contra” impeachment tem contribuído mais para o
enfraquecimento da mensagem do Evangelho do que para seu aperfeiçoamento. Explico.
Algumas pessoas têm sido
um tanto “reducionistas” ao ponto de afirmar, embora não com as mesmas
palavras, que Cristo era/é partidário, e quem não se identifica com determinado
posicionamento político está contra Ele (como se para ser cristão você
precisasse crer em Jesus e adotar determinada linha política).
Não podemos, no entanto,
olhar para Cristo apenas como uma figura histórica e humana e torna-lo um mero
argumento que contribui para a sustentação de uma tese política. Pelo
contrário, agora o vemos como Deus e Salvador, a partir de uma perspectiva reconciliadora
(2 Coríntios 5.16-19).
Douglas Wilson[1], ao debater com
Christopher Hitchens se o cristianismo é bom para o mundo, nos lembra acerca
dessa nova perspectiva:
“Jesus não foi apenas mais um personagem na História, por mais importante que ele tenha sido – antes, foi e é o fundador de uma nova História, uma nova humanidade, um novo jeito de sermos humanos.”
Cristo não pode ser o que
nós queremos, porque na grande maioria das vezes, o que queremos, é
simplesmente provar aos semelhantes que estamos certos e satisfazer nosso ego
político e literário, sem em nada falar a respeito da reconciliação. E isso tem
enfraquecido a mensagem do Evangelho.
Em tempos de crise, assim,
cabe nos relembrar acerca da esperança. As mudanças sociais e políticas que
tanto almejamos só ocorrerão a partir do Evangelho, isto é, quando levamos aos
outros a mensagem da reconciliação.
Cabe nos lembrar, por fim,
que não há problema algum em debater sobre política e basear-se nas Escrituras.
A questão é por qual motivo o fazemos. E, a este respeito, bem escreveu Arthur
Walkington Pink[2]:
"O estudo da Palavra de Deus pode ser realizado com base em vários motivos. Alguns leem a Bíblia para satisfazer seu orgulho literário. (...) Outros a leem para satisfazer seu senso de curiosidade, como o fariam com qualquer outro livro famoso. Ainda outros a leem para satisfazer seu orgulho sectarista. Estes (...) buscam ansiosamente textos que provem e apoiem o que eles chamam de "nossas doutrinas". Ainda há aqueles que leem a Bíblia com o propósito de argumentar eficazmente com aqueles que discordam de suas opiniões. Em toda essa atividade, não há qualquer pensamento sobre Deus, não há qualquer anelo pela edificação espiritual, e, por conseguinte, não há qualquer benefício genuíno para a alma.
(...) O texto bíblico nos diz: "Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra". Observemos o que é omitido: as Escrituras Sagradas não nos foram dadas para satisfazer nossa curiosidade intelectual ou nossas especulações carnais, e sim para capacitar-nos para toda boa obra, mediante o ensino, a reprovação e a correção.”
(...) O texto bíblico nos diz: "Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra". Observemos o que é omitido: as Escrituras Sagradas não nos foram dadas para satisfazer nossa curiosidade intelectual ou nossas especulações carnais, e sim para capacitar-nos para toda boa obra, mediante o ensino, a reprovação e a correção.”
Por um debate político coerente e por um cristianismo e evangelho autênticos.



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