E é assim que procede a próxima bem-aventurança. Chorem! A tradução poderia ser ainda “os que lamentam”. Esta palavra tem o sentido de entristecer-se com uma profunda tristeza que toma conta de todo ser de tal maneira que não pode ser ocultada1. Ainda transmite a ideia de agonia interior profunda - não apenas tristeza externa. Davi expressou esse tipo de dor no Salmo 32: "Quando eu guardei silêncio [sobre o meu pecado] consumiram-se os meus ossos pelo meu bramido durante o dia todo”.
O contexto histórico mostra a tristeza do judeu piedoso por causa da humilhação de Israel, mas entende que esta vem de pecados pessoais e corporativos. Choram os males que sobrevêm da indisposição ao povo pela sua teimosia em arrepender-se e fazer cumprir a justiça divina nas suas vidas e na vida do povo escolhido. Portanto não é necessário limitar este choro ao que ocorre em virtude dos próprios pecados individuais. O seu pranto está centrado em Deus e não no homem2. A maior dor e tristeza para um discípulo deveria ser que o seu Senhor está sendo desonrado.
Mas para o nosso consolo o choro não dura a noite toda. Isaías havia proclamado que o rei messiânico iria pregar as boas novas aos pobres (61.6) e consolar todos os tristes (61.2). Aqui em Mateus se tem alusão às bênçãos messiânicas destas passagens. Quando os judeus ouviram esta promessa de consolação eles tinham a convicção que este consolo só poderia ser dado por Deus (Lc 2.25). “O Messias vem para conceder ‘o óleo da alegria, em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de um espírito deprimido’ (Is 61.3). Mas essas bênçãos já realizadas parcialmente, só serão plenas na consumação dos tempos”3.
O aconselhamento bíblico só é eficaz quando se reconhece que Deus está sendo ofendido pelo pecado. Deve-se chamar a atenção para a necessidade de um luto pelo pecado. Ninguém vai entrar no reino de Deus sem essa atitude, e um cristão deve ter um contínuo senso de sofrimento sobre o pecado em sua vida e na vida dos eleitos. Você tem chorado pelo seu pecado ou está vivendo no parque das ilusões do riso passageiro?
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1. RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave
linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1995. p.9.
2. Ez
9.4; 119.36, 139.21; Ed 10.6; Dn 9.1-4.



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